
Desde seus primórdios, a comunidade definiu que os blocos de Bitcoin teriam o tamanho de 1 MB. Essa limitação foi estabelecida como uma medida de segurança para garantir a integridade e a eficiência da rede. No entanto, à medida que o Bitcoin ganhou popularidade e o número de transações aumentou significativamente, surgiu a necessidade de aumentar o tamanho dos blocos.
Com a chegada do Segregated Witness (segwit), uma atualização do protocolo do Bitcoin, o tamanho dos blocos foi expandido para 2 MB em armazenamento nos nodes. Essa mudança trouxe algum alívio para a capacidade de processamento da rede, mas ainda não era suficiente para atender à demanda crescente.
Em um acontecimento histórico, um bloco de Bitcoin com quase 4 MB (3.955.272 bytes) foi minerado em uma quarta-feira, tornando-se o maior bloco já registrado até o momento. O bloco 774.628, apesar de seu tamanho recorde, surpreendeu ao conter apenas 63 transações. Isso significa que cada transação, em média, ocupou cerca de 99% do espaço disponível no bloco.
A surpresa não parou por aí. Descobriu-se que uma dessas transações, responsável por ocupar 99% do bloco, era um NFT (Non-Fungible Token). Os NFTs são tokens digitais únicos que representam a propriedade de um item específico, geralmente relacionado a arte, colecionáveis ou outros ativos digitais. Neste caso, o NFT em questão era chamado de “Ordinal” e aproveitava a atualização Taproot para armazenar mais dados na blockchain do Bitcoin.
Essa técnica de armazenar NFTs no Bitcoin gerou discussões acaloradas sobre os verdadeiros benefícios e impactos dessa abordagem. Casey Rodarmor, um entusiasta do Bitcoin, explicou que os NFTs estão sendo colocados no campo de testemunho (witness), que normalmente é reservado para as assinaturas de transações. O campo de testemunho, também conhecido como witness, recebe descontos devido ao segwit, o que significa que ocupa apenas 1/4 do valor de outros campos de uma transação. Essa vantagem de custo está impulsionando a inserção de NFTs na blockchain do Bitcoin.
No entanto, nem todos estão satisfeitos com essa abordagem. Luke Dashjr, um desenvolvedor respeitado do Bitcoin, expressou sua preocupação em relação ao aumento do uso de NFTs na rede. Ele questionou se alguém estava trabalhando em um filtro de spam para lidar com o “lixo” gerado pelos NFTs. Outros usuários argumentaram que as taxas de transação servem como um filtro de spam natural, mas Dashjr reiterou que um filtro de spam que não filtra o spam é uma falha.
Curiosamente, a reclamação de Luke Dashjr foi transformada em mais um NFT e circulou na rede, demonstrando o senso de humor e a capacidade da comunidade Bitcoin de transformar críticas em arte.
Essa situação reacende um antigo debate na comunidade Bitcoin sobre o tamanho dos blocos. Desde o início, ficou estabelecido que os blocos teriam 1 MB de tamanho. No entanto, à medida que a rede crescia, surgiram propostas para aumentar o tamanho dos blocos e permitir mais transações por bloco. Essa questão foi o cerne da chamada “guerra do tamanho dos blocos” e levou ao surgimento de forks como o Bitcoin Cash (BCH), que tinha como objetivo aumentar o tamanho dos blocos para 8 MB.
No entanto, em vez de aumentar o tamanho dos blocos diretamente, a comunidade do Bitcoin optou por soluções como o segwit e, mais recentemente, o Taproot, que permitiram um aumento indireto da capacidade de armazenamento dos blocos. Com a adoção do Taproot, os limites dos blocos foram expandidos para 4 MB, além da implementação de outras técnicas para melhorar a escalabilidade.
No entanto, a chegada dos NFTs no Bitcoin trouxe uma nova camada de complexidade para o debate sobre o tamanho dos blocos. O fato de um único NFT poder ocupar o espaço equivalente a centenas de transações comuns levanta preocupações sobre a capacidade da rede de lidar com a demanda crescente e a possibilidade de aumentar as taxas para todos os usuários.
É provável que essa situação gere uma nova onda de discussões entre os desenvolvedores do Bitcoin. Como já vimos, algumas figuras proeminentes, como Luke Dashjr, estão expressando suas preocupações. À medida que a notícia se espalha e mais NFTs são inseridos na rede, é esperado que a controvérsia em torno desse assunto aumente.
Em conclusão, o Bitcoin enfrenta um desafio complexo relacionado ao tamanho dos blocos e à inserção de NFTs na blockchain. Enquanto a comunidade busca soluções para melhorar a escalabilidade e a eficiência da rede, é importante encontrar um equilíbrio entre a adoção de novas tecnologias, como os NFTs, e a capacidade de processar transações de forma rápida e econômica. A comunidade Bitcoin terá que enfrentar essa nova fase de desenvolvimento com debates construtivos e soluções inovadoras para garantir que o Bitcoin continue sendo uma plataforma robusta e confiável para o futuro.