
Desde sua concepção em 2008, a tecnologia blockchain tem experimentado um crescimento exponencial. Sua aplicação inicial foi viabilizar a existência da primeira criptomoeda do mundo, o Bitcoin. No entanto, essa tecnologia enfrenta um grande obstáculo: seu alto consumo de energia, resultante da necessidade de poder computacional para validar dados e transações.
Buscando solucionar essa questão, diversas alternativas têm surgido ao redor do mundo. Uma das mais recentes é uma grande atualização de software da rede concorrente Ethereum, que reduziu em cerca de 99% o consumo de eletricidade.
A blockchain é uma tecnologia que possibilita o registro, envio e recebimento de informações pela internet, sem a necessidade de um banco ou autoridade central para certificar essas transações. É nesse tipo de rede que ocorre a negociação de ativos digitais, como o Bitcoin, os tokens não fungíveis (NFTs), as finanças descentralizadas (DeFis) e as transições nos metaversos.
“É uma espécie de ‘diário oficial’ digital: ele proporciona publicidade independente e auditável automaticamente a dados que se deseja notarizar”, explica Marco Carnut, especialista em blockchain do Zro Bank. Todos os participantes do sistema auditam, verificam e reexaminam o trabalho de cada um, de forma que qualquer tentativa de fraude seja prontamente detectada e ignorada. “Em todos os casos, os usuários estão no centro do processo, pois contribuem para a segurança das transações”, afirma José Lauro Jucá Neto, especialista no assunto.
Provas de dados na blockchain A blockchain adota “provas” digitais para comprovar qualquer alteração de dados, o que aumenta a segurança da rede. As mais conhecidas são o Proof of Work (prova de trabalho), utilizado pelo Bitcoin, que requer poder computacional para resolver cálculos complexos, e o Proof of Stake (prova de participação), utilizado pelo Ethereum, baseado na quantidade de tokens que um nó (computador participante da rede) possui para validar e receber taxas pelas transações.
Além disso, a blockchain é a base para as moedas digitais emitidas por bancos centrais, conhecidas como CBDCs (Central Bank Digital Currencies). “Sem mencionar a tokenização de ativos reais, financeiros e digitais, como imóveis, debêntures, cotas de fundos, créditos de carbono, obras de arte, músicas, entre outros”, acrescenta Thamilla Talarico, sócia da consultoria EY.
O desafio energético O alto consumo de energia é atualmente o ponto fraco dessa tecnologia. Isso se deve à forma como ela funciona. Para que os blocos de dados sejam adicionados à blockchain, eles devem ser validados por “mineradores”, que são computadores com programas que verificam e registram as transações nos blocos. “Eles desempenham o papel de auditores e da Casa da Moeda”, explica Carnut.
Os mineradores auditam as transações encontrando um número de 64 dígitos que “sela” ou “fecha” o bloco de dados. A dificuldade está em encontrar esse número, que, na prática, é a resposta para um problema de matemática computacional extremamente complexo. Para resolvê-lo, é necessário um grande poder computacional, o que consome uma quantidade significativa de energia.
No início do Bitcoin, era possível realizar esse trabalho com um PC comum ou notebook. Com a expansão da rede, o algoritmo da criptomoeda aumentou a dificuldade para encontrar o número desejado. Para descobri-lo, mineradores montam grandes “fazendas” de computadores, que funcionam como casas da moeda, com o objetivo de liberar novos bitcoins na blockchain. Atualmente, há tantos computadores envolvidos nessa atividade que eles consomem cerca de 0,5% da eletricidade global, equivalente ao consumo de países como Argentina ou Suécia.
Para contornar essa questão, muitos mineradores estão investindo em formas sustentáveis de geração de energia, como solar, eólica e geotérmica. Além disso, nem todas as blockchains requerem grande poder computacional. “Esse modelo de alto consumo energético é uma característica original da tecnologia, que surgiu com o Bitcoin”, afirma Jucá Neto.
O caminho a seguir Independentemente da questão energética, a blockchain ainda é celebrada como o futuro da economia e pode viabilizar a tokenização de ativos e a criação de uma futura criptomoeda digital no Brasil, o Real Digital.
O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, recentemente declarou que o país está avançando em direção a um sistema financeiro mais integrado e digital. Esse processo teve início com o Pix, está passando pelo open finance e chegará ao Real Digital.
A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) enxerga essa tendência de forma positiva. Por meio de sua assessoria de imprensa, a entidade afirmou que as transações digitais permitem maior velocidade e segurança. “Portanto, a tokenização da economia é um caminho natural, à medida que novas tecnologias amadurecem”.
Conclusão Embora a tecnologia blockchain apresente um problema significativo de consumo de energia, há esforços para mitigar esse impacto. A atualização de software do Ethereum é um exemplo recente disso. A busca por formas sustentáveis de geração de energia e a adoção de algoritmos menos intensivos em recursos são algumas das estratégias adotadas para enfrentar esse desafio.
A blockchain continua sendo uma inovação revolucionária que tem o potencial de transformar diversos setores, incluindo finanças, arte, música e imóveis. Com o devido foco em soluções energéticas eficientes, é possível aproveitar todos os benefícios dessa tecnologia enquanto se trabalha para minimizar seu impacto ambiental. A tokenização da economia e a evolução para um sistema financeiro mais digital são tendências que estão ganhando força e moldando o futuro das transações e dos ativos digitais.